Se existe uma linha progressiva evidente na arte contemporânea que aposta numa percepção imediata da realidade sensível, existe também uma outra guinada que ruma em sua contramão. O que esta via contrária revela é justamente uma abstração da realidade imediata: uma arte que se distancia da sensibilidade sensorial do mundo e funciona a partir de um barroquismo de imaginações e imaginários, de uma ambientação lúdica e irreverente. Um interesse pela imagem que aponta, sem perder a simplicidade, para um estilo marcado por processos de alegorização e entropias de sentidos. Um mergulho no que está à margem do olhar, naquilo que não se vê com olhos comuns. Aquilo que falta. É esta verdade que se percebe nas obras de Vitória Frate.

A exposição Contornos da Falta reúne cerca de 40 ilustrações, em sua maioria produzidas com nanquim, lápis de cor, aquarela e pastel. Aqui, fica evidente a necessidade de se recuperar a visão como elemento propulsor no contato decisivo com a obra de arte. Se hoje a experiência da sensação visual acaba ficando em segundo plano em detrimento do atiçamento de outros sentidos e da inflação galopante de imagens à disposição, o trabalho de Vitória Frate é um alento para exercitar o prazer simples de ver, para abandonar-se à contemplação do único espetáculo possível: a obra. Em seus traços aparentemente pueris, porém nada ingênuos, sobram acidez, melancolia e uma certeza de que a ilustração, em sua autonomia, pode funcionar como máquina de narrar o mundo, a partir de um processo de assimilação daquilo que falta, marca da exposição. Onde há simplicidade ou mesmo diálogo com nossa infância não há espaço para nenhum tipo de lugar comum. Uma forma de narrar o mundo nem que seja através de língua, dialeto e alfabeto particulares, porque o código comum talvez não dê mais conta de produzir o mínimo diálogo.

O metódico processo de trabalho da artista resulta em um conjunto de exercícios apaixonados (exercícios do ver, para usar uma expressão do teórico espanhol Jesús Martín-Barbero) que refletem sobre a imagem como meio de expressão, de comunicação, de encantamento. Não é só um trabalho identificado apenas com a ideia de apreensão ou fruição do mundo. Ao contrário, tem a ver com composição técnica rigorosa, principalmente pelo fato de que o valor que busca é a força mágica da aparição da imagem neste grau zero que é o papel em branco. Portanto, não se engane, por exemplo, com uma sequência de reproduções de uma girafa, que leva a uma infância cheia de cores e traços leves, sem grandes formalidades e quase ingênua, repleta de detalhes e texturas, com atmosfera lúdica e traços românticos. Por trás de tudo isso, para chegar à simplicidade do traço, há um caminho que evidencia o olhar diante do imprevisto, do espanto, da importância de procurar desarmar qualquer pré-concepção diante da obra de arte.

Em Contornos da Falta, a partir de um processo de abstrair o que se vê para arrojar a imaginação, aparece a ideia de que o comportamento humano se cria por um conjunto de dados internos, que revela a distorção de um mundo onde não há realidade, mas tão somente imaginários. As obras de Vitória Frate são verdadeiros manifestos visuais e, apesar de apresentarem uma rica diversidade, agrupam-se em uma linguagem comum, que acumula uma espécie de olhar memorialista, como se o desenho recebesse a legitimação de ser um testemunho. É também um lugar de memória, que preconiza a evocação de algo perdido (os contornos da falta), que cria, portanto, memórias de sensações e equaciona o que parecia atrofia. Suas imagens têm o apelo da evidência, que é, por si mesma, capaz de persuadir. Um todo determinado pela disjunção das partes. Um olhar agudo – e sem vícios – sobre os hábitos, sobre as circunstâncias, sobre o acaso.


 

Sergio Mota

Professor do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio

Curador de Cinema e Teatro do Centro Cultural Justiça Federal